6 de julho de 2019

Tratamento de endometriose intestinal com técnica minimamente invasiva

Cirurgião oncológico Claudemiro Neto e o ginecologista Felipe Albuquerque

Você sabia que por trás das cólicas menstruais e das dores pélvicas (aquelas que persistem mesmo após a menstruação) pode se esconder uma doença chamada endometriose?

E mais: que a endometriose, se não tratada, pode gerar infertilidade, sangramentos, dores durante o ato sexual e pode acometer até mesmo outros órgãos, como o intestino?

E, pra finalizar, você sabia que já existe tratamento para a grave endometriose intestinal em Alagoas? Ou seja, não é preciso mais sair de Maceió para tratar o problema.

As mulheres conhecem bem os desconfortos gerados pela menstruação, sendo as cólicas os sintomas que provocam maiores prejuízos em seu dia-a-dia.

Para os homens não chega a ser uma preocupação, primeiro porque não sentem “na pele” as dores e, segundo, por pura falta de informação. O detalhe é que até mesmo as mulheres desconhecem os riscos que envolvem a endometriose.

Mas, afinal, o que é a endometriose e porque o assunto não deve ser uma preocupação exclusiva das mulheres?
Quem responde são os médicos Felipe Albuquerque (ginecologista) e Claudemiro Neto (cirurgião oncológico especializado em laparoscopia colorretal).

A endometriose é uma doença benigna caraterizada pelo crescimento anormal de células do endométrio fora do útero. Portanto, a endometriose pode ser definida como a presença do tecido endometrial fora da cavidade uterina, sendo os órgãos da cavidade pélvica os mais acometidos, entre eles o intestino.

A endometriose não tem cura, mas pode ser controlada. Quando não tratada, pode provocar dores incapacitantes (inclusive durante o sexo), anemia profunda e até mesmo infertilidade.

“A cólica menstrual, principalmente aquelas dores pélvicas crônicas que persistem após a menstruação, deve ser investigada o mais cedo possível. Por ser considerada ‘normal’ por homens e mulheres, muitos adiam a consulta ao médico para buscar o diagnóstico e tratar o problema”, diz o ginecologista Felipe Albuquerque. O problema é que essa demora no tratamento tem um preço, e a infertilidade é um deles.

“Cada caso é um caso. Para algumas pacientes o tratamento pode ser o hormonal, com o uso de anticoncepcionais visando inibir a menstruação e, por tabela, a proliferação do endométrio. Para outras, uma “simples” mudança de hábitos, com exercícios e alimentação balanceada. Outras, porém, podem ter indicação cirúrgica. O importante é que o ginecologista não atua sozinho, tendo o trabalho conjunto de cirurgião especializado na área, além de nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta etc.”, concordam Felipe Albuquerque e Claudemiro Neto, que realizaram estudos e pesquisas e atuam juntos na Santa Casa de Maceió.

Doença requer procedimento delicado

Conforme lembra o cirurgião oncológico Claudemiro Neto a endometriose afeta atualmente até 10 milhões de brasileiras. Deste total, 7 milhões possuem uma variação da doença chamada endometriose intestinal ou profunda, que requer maiores cuidados e tratamento cirúrgico.

Para as alagoanas, a boa notícia é que a patologia já é tratada por videolaparoscopia na Santa Casa de Maceió, portanto, em procedimento minimamente invasivo com menos riscos para o paciente e alta precoce se comparada à cirurgia aberta.

Endometriose é benigna

Se a endometriose já é motivo de alerta para médicos e pacientes, a endometriose intestinal apresenta um agravante: por acometer um órgão estratégico como o intestino, o risco de infecções aumenta, elevando também o risco de óbito se não houver tratamento.

O cirurgião oncológico Claudemiro Neto tranquiliza as mulheres frisando tratar-se de uma doença benigna, sem relação comprovada, até o momento, com o câncer.

Em suas consultas, ele faz questão de detalhar a doença e o procedimento a ser realizado, chegando a fazer desenhos para facilitar o entendimento. “Informação é sinônimo de tranquilidade e confiança para o paciente”, diz.

Apesar disso, lembra que a endometriose tem uma característica peculiar em algumas mulheres, a capacidade de surgir em outros órgãos, à semelhança da metástase oncótica (quando um tumor maligno se espalha pelo corpo).

“Mas, repete o cirurgião, a doença é benigna e já tem tratamento em Alagoas. A preocupação de médicos e da população deve continuar sendo com o diagnóstico precoce da doença.”

 

Hospital realizou mais de 60 cirurgias

Acerca de um ano, desde que a videolaparoscopia para tratamento da endometriose intestinal teve início na Santa Casa de Maceió, já foram realizadas 60 cirurgias no centro cirúrgico do hospital com pleno êxito. Em nenhum caso foi preciso fazer a colostomia.

A colostomia é um procedimento em que o intestino grosso é exteriorizado, de forma que as fezes sejam depositadas em uma bolsa coletora. Um exemplo bastante difundido foi o do presidente Jair Bolsonaro, após o atentado sofrido durante a campanha.

“Apesar de sempre haver o risco de que a ressecção da endometriose no intestino leve à opção pela colostomia, ainda não tivemos nenhum caso como esse, o que é motivo de comemoração e de confirmação de que o trabalho que desenvolvemos está atingindo seu objetivo, que é devolver qualidade de vida às pessoas”, comenta o cirurgião oncológico Claudemiro Neto.

 

Problema ainda não tem prevenção

As causas que levam ao surgimento da endometriose profunda, entre elas a intestinal, ainda são incertas para a ciência. Justamente por isso não há como prevenir o problema.

“Há teorias que sugerem relação com alguns fatores, como a menstruação retrógrada – quando a menstruação com as células do endométrio retorna pelas trompas ao invés de ser eliminada”, explica Felipe Albuquerque.

Alguns pesquisadores, porém, apontam para o sistema imunológico deficiente, enquanto outros para a hereditariedade ou o conjunto da obra. Por enquanto ainda sobram muitas dúvidas sobre as causas da endometriose, por isso as pesquisas prosseguem.

6 de julho de 2019