1 de junho de 2020

Médicos da Santa Casa de Maceió contam a experiência de tratar o desconhecido

Falta de parâmetro ventilatório, evolução rápida para casos graves e o medo de levar a doença para casa fazem parte da rotina dos profissionais

Décadas atrás, quando fizeram o juramento de Hipócrates, médicos recém-formados não imaginavam o que estava por vir: uma pandemia que iria testar limites e contrariar muito daquilo que haviam aprendido ao longo dos anos. A Santa Casa de Maceió conta com um time multidisciplinar que atua na linha de frente no combate ao novo coronavírus (Covid-19). Os médicos da instituição são desafiados diariamente e, até o domingo (31), cuidavam de 145 pacientes internados com a doença, 40 deles na UTI.

Fábio Lima foi um dos médicos que atendeu os primeiro pacientes com covid-19

Para o médico intensivista Fábio Lima, a nova realidade lhe foi apresentada no final de fevereiro. O que deveria ser alguns dias de tratamento de uma síndrome gripal, chegou a marca de 26 dias na UTI, 21 deles de intubação, de um dos primeiros pacientes que atendeu com a doença. “Lembro muito bem quando recebi o casal. Marido e mulher foram contaminados na Itália e chegaram doentes em Maceió. A esposa logo recebeu alta, mas ele precisou ser entubado e foi um desafio por três semanas. Quando chegaram só havia mais um paciente na UTI, o que nos permitiu momentos de “calma” para conhecer os efeitos que o vírus tinha sobre o corpo. Quando ele recebeu alta foi uma vitória. Mas os desafios só crescem com o número de pacientes que chegam para tratamento”, relatou.

A sensação de encontrar o desconhecido também foi o sentimento da médica Solange Novelli. “A UTI Neurológica do hospital foi a primeira unidade a atender pacientes com a covid-19. Os desafios foram enormes, pois o receio do desconhecido era imenso. Nossa geração nunca enfrentou nada parecido, com dúvidas quanto à terapia instituída, quanto ao contágio e quanto à condução adequada dos casos. Mas, a partir da primeira experiência, e, principalmente, por ter apresentado um desfecho positivo, nos tornamos mais confiantes e principalmente mais seguros na condução dos casos”, disse a geriatra.

Um dos desafios iniciais era acertar o ponto de oxigenação com o ventilador mecânico. Para pacientes com problemas graves respiratórios, os protocolos instituídos conseguiam dar o suporte esperado e a probabilidade de um resultado positivo existia. Com a covid-19 quase tudo mudou.

“O mais angustiante é que não tínhamos parâmetros de ventilação adequados. Quando temos pacientes que entram por insuficiência respiratória estávamos acostumados a entubar, colocar no respirador, fazer antibióticos ou não e o restante a natureza se encarregava, isso mudou completamente. Tivemos dias muito difíceis com primeiro paciente grave. Nesse período, não entendíamos o tempo lento de recuperação da doença. Tivemos que mudar conceitos, modos ventilatórios, tipos de ventilação da assistência da fisioterapia. É um paciente totalmente diverso do que já tínhamos enfrentado”, completou Fábio Lima.

A geriatra e neurointensivista Solange Novelli está na linha de frente contra o novo coronavírus

Para atender novos pacientes com covid-19, a Santa Casa de Maceió se preparou criando novos fluxos e protocolos. De forma organizada, eficiente e com embasamento científico e na experiência de outros países. No período de 26 de fevereiro até a quinta-feira (28), 2122 pessoas com síndrome gripal foram atendidas pela instituição. Destas, 898 tiveram resultado positivo para o novo coronavírus. Nesses três meses, 161 pacientes receberam alta.

“Nossa equipe se destaca também pelo comprometimento, união e a solidariedade de todos os setores do hospital: corpo clínico, funcionários e direção. Todos envolvidos em prol do sucesso do atendimento e suprimento de todas as demandas. É muito gratificante fazer parte de todo esse processo”, ressaltou Solange Novelli.

“O medo de estar contaminado vai ocorrer todos os dias”, diz médico

Pouco mais de três meses do início da pandemia de covid-19, no país, mais de 100 médicos vieram a óbito por conta da doença. O medo passou a fazer parte do dia a dia de quem atua na linha de frente. “Os médicos precisam entender que ao se contaminar, pode levar para a doença para sua família, vai deixar de atender famílias e também sobrecarregar um colega. Tivemos um período em que cinco dos 10 médicos da clínica médica ficaram doentes e foram afastados. Quem ficou, teve que dar conta no serviço. Felizmente não adoeci, mas tem uma hora que você olha para um lado e para o outro e se pergunta quando isso vai acabar. Pelas estatísticas, sabemos do tempo que ainda vem pela frente. A pressão é grande. O medo de estar contaminado vai ocorrer todos os dias. Mas Deus está olhando para todo mundo para podermos seguir a missão”, desabafou o intensivista.

Solange admite que seu maior medo é contrair a forma grave da doença, mas que isso já assustou mais. “Era algo que sentia logo no início. Antes de adentrar a UTI onde trabalho tive vontade de dar meia volta e recuar. Mas nunca o fiz. O senso de responsabilidade e o amor pelo que faço sempre falaram mais alto. Quando estou ali, durante o plantão, esqueço os receios e procuro dar o melhor de mim. Quanto aos meus amigos, todos fogem de mim com medo (risos). Mas entendo. Já atendi amigos e familiares de amigos, mas tento sempre ser profissional, sem me esquecer do conforto e carinho que a amizade requer”, disse a médica.

Para o intensivista Fábio Lima, a população precisa entender que há um limite técnico, físico, estrutural e até de organização das estruturas de saúde de um modo geral, para atender novos casos de covid-19. “Só temos uma chance contra essa doença: manter o menor número de pessoas nas ruas para diminuir a transmissão do vírus e proteger os de casa. As pessoas não podem chegar aos montes nos hospitais, pois não há atendimento para todos e os médicos podem ser obrigados a fazer a “escolha de Sofia”, e isso é um terror ter que escolher quem você vai salvar ou não”, finaliza.

 

 

 

1 de junho de 2020